segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Luiz Cassemiro


Uma pintura feliz

"Dizem que em algum lugar, parece que no Brasil, existe um homem feliz". Ao escrever estas palavras, em 1907, o poeta russo Maiakóvski seguramente não pensou na arte naïf. No entanto, elas se aplicam perfeitamente à pintura primitivista de Luiz Cassemiro de Oliveira, mestre em mostrar a natureza, o meio rural e as festas populares do interior do Estado de São Paulo.

Nascido em 1942, em Conchas, SP, a 180 km da Capital, o artista, professor de Educação Artística e de Ciências do ensino médio, iniciou sua carreira em 1972, expondo, na Mostra de Artes Plásticas no Paço Municipal de Osasco, cidade onde mora há mais de 30 anos, o quadro A revolução do tempo.

A obra mostra um Cristo crucificado numa visão do alto, que chega a recordar a interpretação dada ao mesmo tema por Salvador Dalí, na célebre tela Cristo de San Juan de la Cruz. Em seguida, participou de numerosas exposições pelo Estado de São Paulo, tendo ainda quadros levados à mostra Mito e Magia del Colore, na Itália, e na Gallery Lively Arts, na Flórida, EUA.

Nesse percurso, o quadro Pau-de-sebo, duplamente premiado, em São Paulo e no XIX Salão das Artes Plásticas do Embu, SP, torna-se emblemático, pois mostra o universo rural de uma maneira descontraída e bem-humorada, em diversos tons de verde sobrepostos de modo a destacar a simplicidade e pureza da vida do interior.

A cidade de Conchas predomina na obra de Cassemiro. Em diversas telas, por exemplo, aparece o universo das ferrovias. Filho de um manobrador, o pintor passou a infância ao lado dos trilhos de trens e perto de vagões e locomotivas. Essas imagens comparecem em diversos de seus quadros, numa vertente autobiográfica muito evidente na tela em que retrata meninos vendendo laranjas numa estação de trem, atividade que o artista exerceu quando criança.

Flagrantes de plantações de algodão e de criação de gado, muito comuns em Conchas, também integram a palheta de Cassemiro, que trabalha geralmente com cores vivas e desenvolve, em diversas telas, uma característica marcante: auras coloridas redondas ou retangulares. Diversas vezes repletas de pontilhismos, funcionam como autênticos zooms, que ressaltam as imagens focalizadas em seu interior.

Essa marca registrada do artista contribui para direcionar a vista do fruidor do quadro, destacando uma pomba que simboliza o Espírito Santo, uma Igreja ou uma outra figura qualquer. Outra técnica diferenciada é o uso de serragem de marcenarias para dar volume a certas telas. Com esse recurso, chifres de bois, narizes de personagens, aves ou árvores ganham relevo e dão dinamismo aos quadros.

Como costuma acontecer com alguns naïfs, a arte também serve como elemento autobiográfico. Encontramos nos quadros de Cassemiro auto-retratos dele com a esposa ou ele mesmo na cadeira do dentista, sendo atendido pela própria filha. Outro homenageado é o seu técnico de futebol amador e amigo em Conchas, mostrado no exercício de sua profissão, sapateiro. Isso sem contar uma comovente e delicada imagem da última visão que teve da mãe, poucos dias antes de ela falecer.

Embora em menor quantidade, Cassemiro também pinta temas políticos. Aparecem em seus quadros integrantes do Movimento dos Sem-Terra, bóias-frias em caminhões superlotados e o episódio ocorrido em 1998, quando um índio pataxó foi queimado, em Brasília, por estudantes num ponto de ônibus, num ato irresponsável que mobilizou a opinião pública do País.

Oriundo de uma família em que o tio-avô fazia viola no canivete e o irmão é marceneiro, Cassemiro, após uma vida voltada ao magistério, com todas as recompensas pessoais e agruras salariais da profissão, decidiu, após a aposentadoria, em 1999, dedicar-se, em tempo integral, à pintura.

Isso significa perseguir os passos de um de seus ídolos, o ator e diretor Charles Chaplin, que ganhou seu espaço na história da arte ao recriar as tradições do teatro cômico inglês de variedades, no qual trabalhou na infância, colocando-as sob uma nova perspectiva.

Guardadas as devidas proporções, o pintor de Conchas faz o mesmo. Ao retomar temáticas e imagens de sua própria vida e da cidade onde passou os primeiros anos, Cassemiro ultrapassa criativamente sua memória individual. Quando pesquisa novas técnicas e busca novos desafios temáticos, atinge o maior patrimônio de qualquer artista: o imaginário coletivo.

É o que fez, por exemplo, em obra que enfoca Osasco, na qual pinta imagens que recuperam o passado da região, alude à autonomia política e inclui até placas com o nome dos prefeitos locais. Nesse trabalho, está o diferencial de Cassemiro em relação a outros naïfs. Ele parte do passado vivido na própria pele e o ultrapassa artisticamente.

Cassemiro pode representar, na arte naïf brasileira, o papel que o cineasta Nanni Moretti, diretor, entre outros de Meu caro diário, tem no cinema italiano: o de retomar a própria trajetória vivencial para agigantá-la, com bom humor, sensibilidade e – principalmente – talento. Assim, as palavras de Maiakóvski, pronunciadas no início do século XX, poderão encontrar, no artista de Conchas, durante os primeiros anos do século XXI, sua correspondência pictórica.

Oscar D'Ambrosio

O autor é jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP, 1999).

Fonte da imagem: www.artcanal.com.br/oscardambrosio/luizcassemiro.htm